Por: Diego Gomes
Dias atrás, eu estava em Curitiba, no sul do Brasil. Tive um dia livre e resolvi fazer algo que amo sempre que posso: visitar um museu e passar a manhã contemplando arte.
O belíssimo Museu Oscar Niemeyer é uma obra-prima do movimento modernista brasileiro. Ele reflete o estilo do renomado arquiteto, com suas construções de concreto armado repletas de curvas e formas surpreendentes. Para aqueles que não sabem, Niemeyer foi um dos principais responsáveis pelo projeto urbano de Brasília, a capital do Brasil, que abriga algumas das mais inovadoras e modernas edificações do país.
Enquanto caminhava pelo museu, uma exposição específica chamou minha atenção: uma mostra sobre “A Arte e a Guerra” no Afeganistão. A exibição reunia tapeçarias feitas por mulheres e crianças afegãs durante a guerra. À primeira vista, pareciam belos tapetes orientais, com cores vibrantes contrastadas por tons terrosos, padrões formados por animais e aquela exuberância estética com a qual nós, do Ocidente, estamos familiarizados.
Contudo, ao observar mais de perto as tramas que compunham aqueles tapetes, percebi um padrão de imagens ocultas, quase subliminares, entre as explosões de cores e beleza: tanques de guerra, helicópteros, bombas, todos tecidos discretamente entre os outros desenhos do cotidiano.
Enquanto lia as descrições ao lado das obras, uma história começou a se formar diante de mim. Aqueles tapetes foram feitos por mulheres e crianças — algumas órfãs, outras refugiadas — em meio aos bombardeios que destruíam suas vilas. Muitos foram tecidos em teares improvisados no chão das casas, enquanto a guerra acontecia ao redor.
Em uma cultura onde as mulheres são silenciadas, durante um conflito que dizimava suas famílias e comunidades, elas encontraram uma forma de expressar suas dores através da arte. Talvez suas casas fossem o único abrigo que conheciam. No silêncio de seus lares, teciam aquilo que não podiam dizer. A arte oferece linguagem mesmo quando as palavras nos são negadas.
O peso daquela história silenciosa me atingiu em cheio naquela sala de exposição. As lágrimas escorreram sob meus óculos de armação tartaruga — lágrimas de empatia, ao imaginar a dor daquelas pessoas, mas também de respeito e admiração.
Um tapete, em especial, capturou minha atenção por seu contraste com os demais. Era uma trama simples, em preto e marrom, sem figuras reconhecíveis. Ao ler a descrição ao lado, descobri que se tratava de um tapete de oração muçulmano. Diariamente, nos horários determinados pela fé islâmica, aquelas mulheres se ajoelhavam em suas casas, voltadas para Meca, e oravam ao seu Deus.
Talvez pela primeira vez na vida, fui visitado por uma ideia: o que significa orar em meio a uma guerra? Veja bem, eu me interesso por geopolítica, oro pelas guerras ao redor do mundo, mas nunca vivi uma. Nunca precisei estar em uma guerra orando.
Eu não sei como é. Nós não sabemos. Estamos imersos no conforto que o Ocidente nos proporciona. Vivemos em cidades desenvolvidas, frequentamos templos confortáveis e temos liberdade religiosa para expressar publicamente nossa fé e nossas ideias. Mas aquelas mulheres sabem o que é orar em meio à guerra, com seus tapetes e, talvez, apenas a esperança de um futuro melhor.
Na exposição sobre “A Arte e a Guerra”, fiquei pensando sobre a arte — e a guerra — da oração. Arte, porque a oração nos dá linguagem para nos comunicarmos com Deus, muitas vezes uma linguagem inexprimível, quando palavras não bastam para expressar o que sentimos diante das realidades que nos sobrecarregam. Guerra, porque, por meio da oração, podemos acessar o impossível, alcançar o inimaginável, vencer o invencível e permanecer firmes diante dos conflitos da vida.
Lembrei-me das palavras da carta de Tiago:
“A oração de um justo é poderosa e eficaz. Elias era humano como nós. Ele orou fervorosamente para que não chovesse, e não choveu sobre a terra durante três anos e meio. Depois, orou novamente, e os céus enviaram chuva, e a terra produziu os seus frutos.” (Tiago 5:16b-18)
Deixei a exposição pensando nas crianças. Talvez, para aquelas mães, a tapeçaria fosse a única forma lúdica de explicar a guerra a seus filhos. Talvez, para aquelas crianças, tecer fosse a única terapia disponível em meio ao conflito.
E agora me consome um pensamento que quero compartilhar com você, leitor — uma pergunta que quero lhe fazer: será que não podemos fazer mais pelas pessoas que vivem em guerra ao redor do mundo? Talvez você possa começar agora, encontrando o seu próprio “tapete” e orando. Que, enquanto oramos, Deus nos inspire com compaixão e visão.